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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dies Irae

DIES IRAE
Apetece cantar,mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
 
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
 
Apetece morrer,mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

 
Miguel Torga
 
Um poema de que me lembrei de repente, do fundo de uma memória há muito apagada. Felizmente o google encontrou-mo, completo (como vivíamos antes do google?). Lido inteiro, parece-me muito ajustado aos tempos que correm, de gritos surdos e revoltas atadas.

sábado, 15 de setembro de 2012

15 de setembro


Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.


                                  Manuel Alegre

Em homenagem a todos quantos puseram pés ao caminho e mãos à obra. Simbolicamente hoje, visivelmente na rua, mas também pensando em todos os outros que, (ainda) em silêncio, partilham desta luta.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Fernando Assis Pacheco e a "Musa Irregular"

Um poeta maior, não dos mais estudados ou dos mais lidos, mas cuja "Musa Irregular" (coletânea de trinta anos de escrita) traz uma respiração soberba, ora desapiedada, ora comovente e íntima. É outra das minhas vozes de eleição e hoje fica um poema "à O'Neill", muito adequado aos tempos que agora correm.

Poeta no supermercado

1Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

2
Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de miostérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Sensacionismo. Alberto Caeiro

Sensacionismo. Sensação. Sensação na poesia.
Resumido ao essencial, é isto, mas Fernando Pessoa desdobrou-se em explicações, que os mais curiosos ou interessados podem encontrar em textos de análise e auto-interpretação, distribuídos por várias páginas, num sítio que se recomenda para "amantes e estudiosos" da obra pessoana.
O sensacionismo de Alberto Caeiro é o mais acessível e concreto, espraindo-se por poemas onde se repete a recusa da metafísica, a adesão ao imediatismo da natureza, a importância dos sentidos, sobretudo da visão.
Não é o meu heterónimo preferido, mas é impossível não se deixar embalar pela música de uma poesia aparemente leve e frágil, como uma flor acabada de nascer. O mestre dos outros heterónimos, como Pessoa quis que fosse, conduz o leitor para um ambiente de singeleza, onde cada elemento (natural) retoma o seu valor próprio. E isso é, ainda ou sobretudo nos tempos que correm, uma chamada à terra, contra as estratosféricas preocupações.


IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

s.d.
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
- 39.


 





segunda-feira, 30 de abril de 2012

A vida apenas, sem mistificação

 
 
 
Os ombros suportam o mundo


Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
 
Carlos Drummond de Andrade
 
(Ilustração: Shaun Tan, "Redtree")

segunda-feira, 23 de abril de 2012

"Aquarela" de Vinicius de Moraes



(...)

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

Para a C.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Pátria

Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.

Sophia de Mello Breyner

Sophia escreveu este poema no tempo da ditadura, quando ansiava e lutava - ela mais um bom punhado de gente - pela liberdade, pela luz e pela justiça. Há algo de profundamente errado no facto de se ler o poema e o sentir dolorosamente atual. Pobre país que é o meu. Atravessamos uma longa, funda noite, e as metáforas são apenas uma tímida muleta para descrever este desespero mudo que vai crescendo em rostos de silêncio e paciência, em traços de fome, num exílio que se instala insidiosamente.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Mais um dia...o da poesia

Afinal, as efemérides não ficam por aqui...no dia mundial da poesia, tomai lá do O'Neill*


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

* Título de um documentário sobre Alexandre O'Neill e também de uma peça de teatro inspirada na sua vida e obra.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Dia dos pais

A todos os pais que um dia estremeceram perante o sorriso adormecido dos seus filhos. Ao meu pai, que partiu prematuramente. Ao pai das minhas filhas, que reinventa o amor em cada gesto quotidiano. Obrigada por existirem, pais presentes e pais presentes de outra maneira.

Os filhos são figuras estremecidas
e, quando dormem, a felicidade
cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes
...
os lábios, ama-os sobre as camas.
É por mim que chamam quando temem
o eclipse e o temporal. Trazem nos cabelos
o aroma do leite e da festa das rosas.
Voam-me por entre os dedos, por entre
as malhas da rede de espuma
que lanço a seus pés. Reinam
num sítio de penumbra onde não
me atrevo sequer a dizer quem sou.

José Jorge Letria, in Os Achados da Noite




(Não gosto particularmente dos dias disto e dias daquilo, mas todas as regras admitem exceções e hoje, dia de S.José, quebro esta. Fica o poema e duas páginas de um belo livro para adultos e crianças: P de Pai de Isabel Martins e Bernardo Carvalho, que pode ser visto aqui .)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Mesa dos Sonhos


Mesa dos Sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'


Os poemas não precisam de legendas, nem as deveriam ter. Mas quando lemos um poema de que gostamos muito - e eu gosto muito da poesia de Alexandre O'Neill - dá-se o reconhecimento de uma verdade interior, que implusiona a expressão e motiva a palavra. Os poemas também não são monumentos. Podemos falar deles, com eles e sobre eles - por isso estão vivos.
A "mesa dos sonhos" de que fala O'Neill é um grito de esperança num tempo de pessimismo e desilusão, como era o dele - a longa sombra salazarista - como é, de certo modo e talvez inesperadamente também o nosso tempo. Defendemo-nos da morte com os sonhos, ao lado uns dos outros - precisamos de um pequeno aburdo destes, todos os dias.