terça-feira, 17 de abril de 2012

Pátria

Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.

Sophia de Mello Breyner

Sophia escreveu este poema no tempo da ditadura, quando ansiava e lutava - ela mais um bom punhado de gente - pela liberdade, pela luz e pela justiça. Há algo de profundamente errado no facto de se ler o poema e o sentir dolorosamente atual. Pobre país que é o meu. Atravessamos uma longa, funda noite, e as metáforas são apenas uma tímida muleta para descrever este desespero mudo que vai crescendo em rostos de silêncio e paciência, em traços de fome, num exílio que se instala insidiosamente.

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