Começou novembro com o último feriado de Todos-os-Santos, um dia cinzento como tem sido recorrente neste outono de pouco sol e muitas sombras. O tempo como o país, numa morrinha amansada, insidiosa, depressiva.
Começa novembro com um feriado que deixará de o ser, pondo termo a uma longa tradição de peregrinações por esse país fora, numa urgência de visita aos cemitérios que nos marca como povo mais vocacionado para o passado do que para o futuro.
Confesso a minha indiferença relativamente ao fim do que é por quase todos concebido como o "dia dos mortos". Não guardo boas recordações deste dia, sou avessa a cultos de cemitérios, velas e flores e parece-me dispensável haver um dia fixo para que os familiares visitem os "seus" mortos, nas "suas" campas.
Contudo, sou sensível ao facto de que, para muitas famílias, esta era uma ocasião única para reencontrarem os que vivem longe. Por causa deste dia, milhares de pessoas deslocavam-se, com uma fidelidade que nem no natal nem em qualquer outra festividade encontrava paralelo. Suponho que o ritual poderá ser transferido para o fim de semana, mas não será a mesma coisa e penso que o poder de mobilização se perderá, em poucos anos.
Novembro é um mês de dias pequenos e passos mais curtos, encolhidos pelo primeiro frio.
Um blogue de pequenos absurdos...sobre literatura, quotidiano, cultura, acontecimentos. Ideias para negar a melancolia e procurar caminhos.
Mostrando postagens com marcador Razões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Razões. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
sábado, 29 de setembro de 2012
Sobre a memória
"Eis uma outra forma de darmos sentido à expressão 'lugares de memória'. Tudo o que me acontece acontece no passado (Freud: 'um afcto está sempre no passado'). Mas cada lugar em que me instalo e enraízo é sobretudo, na melancolia das suas referências, o lugar de uma felicidade futura. Praias do Brasil, costas da Bretanha, hotéis decadentes à beira-mar com o bafo quente nas madeiras que rangem e a humidade dos musgos. A memória enrola-se em torno destes dias esguios que se subtraem à indiferença dos calendários. Um lugar da memória não é mais do que isto: um tecido que se deixa embeber pelo azul do céu e pelo azul do mar."
Eduardo Prado Coelho, Tudo o que não escrevi. Diário II, Porto, Edições Asa, 1994, p.194
Eduardo Prado Coelho, Tudo o que não escrevi. Diário II, Porto, Edições Asa, 1994, p.194
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Amigos (3)
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe :
- Por favor... Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o príncipezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me !
- Que é preciso fazer? Perguntou o príncipezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, cada dia, te sentará mais perto...
No dia seguinte o príncipezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta a agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito ? Perguntou o príncipezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias !
Assim o príncipezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou à hora da partida, a raposa disse :
- Ah ! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o príncipezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! Disse o príncipezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada !
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou :
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o príncipezinho rever as rosas :
- Vós não sois absolutamente iguais a minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda: Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o para vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa :
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
O essencial é invisível para os olhos, repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... Repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.
Antoinde de Saint-Exupery, O Pequeno Príncipe, trad. de Vinna Mara Fonseca, disponível em http://www.cirac.org/Principe/Ch21-pt.htm
- Por favor... Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o príncipezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me !
- Que é preciso fazer? Perguntou o príncipezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, cada dia, te sentará mais perto...
No dia seguinte o príncipezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta a agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito ? Perguntou o príncipezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias !
Assim o príncipezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou à hora da partida, a raposa disse :
- Ah ! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o príncipezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! Disse o príncipezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada !
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou :
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o príncipezinho rever as rosas :
- Vós não sois absolutamente iguais a minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda: Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o para vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa :
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
O essencial é invisível para os olhos, repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... Repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.
Antoinde de Saint-Exupery, O Pequeno Príncipe, trad. de Vinna Mara Fonseca, disponível em http://www.cirac.org/Principe/Ch21-pt.htm
quarta-feira, 6 de junho de 2012
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Utopia
"Utopia, espécie de loucura capaz de fecundar a razão e de modificar a existência ou, quando menos, de a tornar suportável."
Jacinto do Prado Coelho
"A verdadeira vontade utópica não é de modo algum uma ambição infinita; ela reclama sobretudo o que é simplesmente imediato."
Ernst Bloch
A utopia é, na linguagem comum, confundida com algo de irrealizável, de impossível de concretizar - desconfia-se dos utópicos e das utopias, como se acreditar no que está para além do tangível fosse ameaçador e perigoso - na verdade, é-o, mas de formas que os medrosos nem suspeitam. A utopia será sempre uma forma de estar atento, e dessa atitude nasce uma força de mudança que é urgente nos dias que correm.
Jacinto do Prado Coelho
"A verdadeira vontade utópica não é de modo algum uma ambição infinita; ela reclama sobretudo o que é simplesmente imediato."
Ernst Bloch
A utopia é, na linguagem comum, confundida com algo de irrealizável, de impossível de concretizar - desconfia-se dos utópicos e das utopias, como se acreditar no que está para além do tangível fosse ameaçador e perigoso - na verdade, é-o, mas de formas que os medrosos nem suspeitam. A utopia será sempre uma forma de estar atento, e dessa atitude nasce uma força de mudança que é urgente nos dias que correm.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Razões de um blogue
Há uns tempos, comecei a matutar na ideia de ter um blogue. Afinal, gosto de escrever, acredito que não o faço mal e (suprema presunção...) penso que tenho algumas coisas a dizer que podem interessar mais que ao meu umbigo.
O primeiro desafio foi o nome. Ocorreram-me muitos...mas todos ocupados. Foi aí que me apercebi, por um lado, da minha pouca imaginação (mas como é que houve alguém que pensou nisto antes de mim?) e, por outro, da imensidão de cantos e cantinhos nesta blogosfera em língua portuguesa. Muitos encerrados, é certo, outros com meia dúzia de mensagens, mas vivos o suficiente para me impedirem de escolher aquele nome que tão bem condizia com as minhas intenções.
De experiência em experiência, acabei por ser guiada pela poesia de Alexandre O'Neill. Esclareço desde já que será presença assídua neste espaço, pois considero-o, simplesmente (e há muito tempo), um dos maiores poetas portugueses do século XX. Não me consigo lembrar exatamente como o descobri, mas penso que terá sido na adolescência, curiosidade suscitada pelas poesias dispersas que encontrava nos manuais de português. Hei-de falar sobre isto.
Sempre gostei muito do poema que dá título a este blogue. Não sendo um dos mais conhecidos, é para mim um dos mais comoventes - escrito na fase final da vida de O'Neill, é um texto feito de arestas cortantes onde, apesar do cansaço manifestado, não há desesperança nem desistência. É um poema de resistência. Resistir é preciso.
Vivemos tempos difíceis, e repeti-lo seria um lugar comum se não fosse tão verdade. Não é só a crise económica, embora esta tenha o condão de deixar em carne viva o que antes talvez não passasse de um prurido tolerável. É uma crise mais profunda e mais permanente; uma ausência de acreditar, a falência do otimismo. As pessoas olham para o chão; angustiam-se com o presente - acreditam ainda no futuro? Como chegamos aqui? Como vamos avançar de costas para o devir?
O desejo de começar este blogue coincidiu, mais coisa menos coisa, com um período em que senti a minha energia habitual a abandonar-me, ao mesmo tempo que a urgência dos dias me impôs um ritmo inusitado de trabalho, lembrando-me que estava proibida de baixar os braços. Bem, deixo claro que esta é uma característica minha: não baixar os braços, não desistir de um projeto, resistir, nem que seja por teimosia, nem que me esgote no processo.
O blogue nasce agora, no momento certo, depois de meses de hibernação e, repito-o, existe porque resistir é preciso. Contra o cansaço, uma faca. A faca do absurdo.
Pequenos absurdos, portanto. Que podem ser tudo: as viagens, os sonhos, os desejos, os desabafos, os comentários, os sentimentos. A literatura, a poesia, a futilidade, os locais, os projetos, as coisas. As palavras, as imagens, os silêncios. Sinto agora a ansiedade de todas as partidas.
A reter: Um pequeno absurdo às vezes basta para salvar.
O primeiro desafio foi o nome. Ocorreram-me muitos...mas todos ocupados. Foi aí que me apercebi, por um lado, da minha pouca imaginação (mas como é que houve alguém que pensou nisto antes de mim?) e, por outro, da imensidão de cantos e cantinhos nesta blogosfera em língua portuguesa. Muitos encerrados, é certo, outros com meia dúzia de mensagens, mas vivos o suficiente para me impedirem de escolher aquele nome que tão bem condizia com as minhas intenções.
De experiência em experiência, acabei por ser guiada pela poesia de Alexandre O'Neill. Esclareço desde já que será presença assídua neste espaço, pois considero-o, simplesmente (e há muito tempo), um dos maiores poetas portugueses do século XX. Não me consigo lembrar exatamente como o descobri, mas penso que terá sido na adolescência, curiosidade suscitada pelas poesias dispersas que encontrava nos manuais de português. Hei-de falar sobre isto.
Sempre gostei muito do poema que dá título a este blogue. Não sendo um dos mais conhecidos, é para mim um dos mais comoventes - escrito na fase final da vida de O'Neill, é um texto feito de arestas cortantes onde, apesar do cansaço manifestado, não há desesperança nem desistência. É um poema de resistência. Resistir é preciso.
Vivemos tempos difíceis, e repeti-lo seria um lugar comum se não fosse tão verdade. Não é só a crise económica, embora esta tenha o condão de deixar em carne viva o que antes talvez não passasse de um prurido tolerável. É uma crise mais profunda e mais permanente; uma ausência de acreditar, a falência do otimismo. As pessoas olham para o chão; angustiam-se com o presente - acreditam ainda no futuro? Como chegamos aqui? Como vamos avançar de costas para o devir?
O desejo de começar este blogue coincidiu, mais coisa menos coisa, com um período em que senti a minha energia habitual a abandonar-me, ao mesmo tempo que a urgência dos dias me impôs um ritmo inusitado de trabalho, lembrando-me que estava proibida de baixar os braços. Bem, deixo claro que esta é uma característica minha: não baixar os braços, não desistir de um projeto, resistir, nem que seja por teimosia, nem que me esgote no processo.
O blogue nasce agora, no momento certo, depois de meses de hibernação e, repito-o, existe porque resistir é preciso. Contra o cansaço, uma faca. A faca do absurdo.
Pequenos absurdos, portanto. Que podem ser tudo: as viagens, os sonhos, os desejos, os desabafos, os comentários, os sentimentos. A literatura, a poesia, a futilidade, os locais, os projetos, as coisas. As palavras, as imagens, os silêncios. Sinto agora a ansiedade de todas as partidas.
A reter: Um pequeno absurdo às vezes basta para salvar.
Assinar:
Postagens (Atom)
