segunda-feira, 5 de março de 2012

Mesa dos Sonhos


Mesa dos Sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'


Os poemas não precisam de legendas, nem as deveriam ter. Mas quando lemos um poema de que gostamos muito - e eu gosto muito da poesia de Alexandre O'Neill - dá-se o reconhecimento de uma verdade interior, que implusiona a expressão e motiva a palavra. Os poemas também não são monumentos. Podemos falar deles, com eles e sobre eles - por isso estão vivos.
A "mesa dos sonhos" de que fala O'Neill é um grito de esperança num tempo de pessimismo e desilusão, como era o dele - a longa sombra salazarista - como é, de certo modo e talvez inesperadamente também o nosso tempo. Defendemo-nos da morte com os sonhos, ao lado uns dos outros - precisamos de um pequeno aburdo destes, todos os dias.

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