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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dies Irae

DIES IRAE
Apetece cantar,mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
 
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
 
Apetece morrer,mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

 
Miguel Torga
 
Um poema de que me lembrei de repente, do fundo de uma memória há muito apagada. Felizmente o google encontrou-mo, completo (como vivíamos antes do google?). Lido inteiro, parece-me muito ajustado aos tempos que correm, de gritos surdos e revoltas atadas.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Primeiro de maio

No dia primeiro de maio as notícias falam de manifestações das centrais sindicais, e um líder sindical destacava que é difícil mobilizar os desempregados e aqueles que temem pelos seus empregos. Que quem se sente ameaçado não vem para a rua manifestar-se, por mais lógico que fosse reforçar o protesto precisamente nestas condições.

No dia primeiro de maio as notícias falam de uma cadeia de supermercados que escolheu precisamente este dia para fazer promoções e por esta razão as pessoas levantaram-se cedo, encheram os corredores e atropelaram-se para chegar às prateleiras.

A loja em vez das ruas. Poupar uns euros em compras em vez de desfilar por direitos que, lá no fundo, já não se acredita que regressem. Será fácil condenar, mas esta situação é semelhante a muitas outras. por exemplo, à dos que compram leite espanhol: comprar português é um luxo para quem meia dúzia de euros ao fim do mês faz imensa diferença.

A resignação chega devagarinho, insidiosamente. Mas muitos de nós têm ainda o dever e a responsabilidade da revolta. Porque temos uma voz. Uma voz continua a ser a mais poderosa das armas.



terça-feira, 17 de abril de 2012

Pátria

Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.

Sophia de Mello Breyner

Sophia escreveu este poema no tempo da ditadura, quando ansiava e lutava - ela mais um bom punhado de gente - pela liberdade, pela luz e pela justiça. Há algo de profundamente errado no facto de se ler o poema e o sentir dolorosamente atual. Pobre país que é o meu. Atravessamos uma longa, funda noite, e as metáforas são apenas uma tímida muleta para descrever este desespero mudo que vai crescendo em rostos de silêncio e paciência, em traços de fome, num exílio que se instala insidiosamente.