quinta-feira, 17 de maio de 2012

Sensacionismo. Alberto Caeiro

Sensacionismo. Sensação. Sensação na poesia.
Resumido ao essencial, é isto, mas Fernando Pessoa desdobrou-se em explicações, que os mais curiosos ou interessados podem encontrar em textos de análise e auto-interpretação, distribuídos por várias páginas, num sítio que se recomenda para "amantes e estudiosos" da obra pessoana.
O sensacionismo de Alberto Caeiro é o mais acessível e concreto, espraindo-se por poemas onde se repete a recusa da metafísica, a adesão ao imediatismo da natureza, a importância dos sentidos, sobretudo da visão.
Não é o meu heterónimo preferido, mas é impossível não se deixar embalar pela música de uma poesia aparemente leve e frágil, como uma flor acabada de nascer. O mestre dos outros heterónimos, como Pessoa quis que fosse, conduz o leitor para um ambiente de singeleza, onde cada elemento (natural) retoma o seu valor próprio. E isso é, ainda ou sobretudo nos tempos que correm, uma chamada à terra, contra as estratosféricas preocupações.


IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

s.d.
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
- 39.


 





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