Rodrigo Leão & Cinema Ensemble, álbum "A Mãe" (para mim, o melhor do autor até à data), com a participação especial de Neil Hannon.
Uma música à parte, com um arranjo belíssimo e uma voz poderosamente lírica. Comovente. O nevoeiro lá fora parece deixar todas as coisas num estado de suspensão, entre o céu e a terra, entre o presente e um indefinível futuro. Esta música condiz com a bruma.
Esta banda acompanhou-me durante anos e marcou um período que recordo com alguma nostalgia - um período em que se embalavam os trabalhos e os sonhos ao som de um pequeno rádio-despertador, noite fora. Foi também uma das primeiras bandas que vi ao vivo, no parque da cidade, entre as árvores que delimitavam o pequeno recinto da Queima das Fitas em Coimbra. Era tempos tão diferentes, esses de há 25 anos, alheios à vertigem insane que agora percorre as festas de estudantes, onde o excesso parece ser (quase) a única palavra de ordem.
Os Sétima Legião foram música de fundo de um grupo de amigos que ainda hoje se mantém mais ou menos inalterado. Um de nós partiu absurdamente cedo. Guardo o embalo das melodias e recordo, mais uma vez, que "não se perdeu nada em mim".
No dia primeiro de maio as notícias falam de manifestações das centrais sindicais, e um líder sindical destacava que é difícil mobilizar os desempregados e aqueles que temem pelos seus empregos. Que quem se sente ameaçado não vem para a rua manifestar-se, por mais lógico que fosse reforçar o protesto precisamente nestas condições.
No dia primeiro de maio as notícias falam de uma cadeia de supermercados que escolheu precisamente este dia para fazer promoções e por esta razão as pessoas levantaram-se cedo, encheram os corredores e atropelaram-se para chegar às prateleiras.
A loja em vez das ruas. Poupar uns euros em compras em vez de desfilar por direitos que, lá no fundo, já não se acredita que regressem. Será fácil condenar, mas esta situação é semelhante a muitas outras. por exemplo, à dos que compram leite espanhol: comprar português é um luxo para quem meia dúzia de euros ao fim do mês faz imensa diferença.
A resignação chega devagarinho, insidiosamente. Mas muitos de nós têm ainda o dever e a responsabilidade da revolta. Porque temos uma voz. Uma voz continua a ser a mais poderosa das armas.
E o futuro é uma astronave Que tentamos pilotar Não tem tempo nem piedade Nem tem hora de chegar Sem pedir licença muda nossa vida E depois convida a rir ou chorar Nessa estrada não nos cabe Conhecer ou ver o que virá O fim dela ninguém sabe Bem ao certo onde vai dar Vamos todos numa linda passarela De uma aquarela que um dia enfim Descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo Que descolorirá E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva Que descolorirá Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo Que descolorirá
De forma improvável, esta música acompanhou uma parte da minha adolescência. Não a mais feliz nem luminosa, mas uma parte de mim que hoje, tantos anos passados, recordo com alguma nostalgia e o sentimento de que "não se perdeu nada em mim" (Sophia). O passado só se torna um fardo intolerável se o futuro recusar a reelaboração da memória. Olhar para trás com os pés no presente é descobrir, por vezes com surpresa, que todos os caminhos foram importantes para chegar a uma meta que, sabemo-lo bem, está sempre alguns metros à frente dos nossos passos.
O grande Jorge Palma, numa música que não será das mais conhecidas, mas que para mim é das mais belas, na letra como na música. A grande poesia vive (também) aqui. Simplesmente arrepiante.
É uma pequena pérola esta música belíssima, cantada com um intimismo que nos conduz a caminhos de luz e sombra. Há momentos assim, de puro encantamento - momentos que nos transportam para cantos absurdos da nossa sensibilidade e nos enchem a alma de sentido(s).