Um blogue de pequenos absurdos...sobre literatura, quotidiano, cultura, acontecimentos. Ideias para negar a melancolia e procurar caminhos.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
A comida guardada na cave e os cravos vermelhos
Tinha eu cinco anos quando se deu o 25 de abril de 74 e do dia, como é natural, não me ficaram traços na memória. Contam-me, porém, que nos meses posteriores se temeu a guerra civil e os meus pais, como outras pessoas na aldeia, começaram a acumular mantimentos, supostamente em segredo. Foi-me dito, então, para não contar a ninguém sobre a existência destas reservas, o que, como se calcula, terá sido o melhor incentivo para revelar, a qualquer visita ocasional, que a minha mãe tinha na cave muitos pacotes de arroz, de açúcar, de massa...
Enquanto criança já mais velhinha, a Revolução de Abril exerceu sempre em mim um imenso fascínio. Lembro-me bastante bem que fazia questão de ir ao jardim colher um cravo vermelho e colocá-lo ao peito, apesar de em casa não haver uma militância política observável. Mais tarde, aquando das comemorações do décimo aniversário da revolução, escrevi um texto para concorrer a um concurso promovido pela recém-criada Associação 25 de Abril: ganhei um diploma e um livro sobre arte, a par de um imenso orgulho por ter sido distinguida. (Lembrem-se que adoro concursos...) Hei-de recuperar este texto, que há de andar lá por casa da minha mãe, talvez na cave onde se esconderam outrora os mantimentos!
Observo agora, falando desta data a jovens para quem 25/04/1974 é uma data não muito diferente de 01/12/1640, que importa, mais que nunca, relembrar, fazer história, mostrar o antes e o depois. Que eu não me lembro como era antes de 1974, em boa verdade. Mas cresci no mesmo ritmo das conquistas de abril, cresci no passo marcado pela evolução da sociedade nestas quase quatro décadas e sei, sabemos todos, que o retrocesso não nos pode deixar indiferentes.
Não concordo com a ausência da Associação 25 de Abril e de Mário Soares do Parlamento neste dia. A luta é diária, daqui para a frente, e queiramos ou não, tem de ser feita nos palcos que a democracia criou, há trinta e oito anos, num dia bem mais claro que o de hoje.
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Um comentário:
Gostei de ler e também não concordo com a ausência no Parlamento das figuras que marcaram esta tão importante data. Como diz a luta deve "ser feita nos palcos que a democracia criou".
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