Uma aldeia com um nome curioso e uma jornada fotográfica a culminar o curso que com tanto gosto fiz. Não é a mais bela nem a mais interessante das aldeias do concelho da Guarda, mas representa bem as maleitas que a outras afligem: o abandono progressivo, o envelhecimento da população, a degradação do património arquitetónico, o desleixo de muitas das novas construções.
Apesar dos sinais de sombra, há ainda luz nestes caminhos e nestas pedras, e sobretudo na voz dos que saem para conversar um pouco, curiosos por verem o pequeno grupo de máquina fotográfica na mão. Conversam, explicam a razão das casas a cair, contam retalhos de famílias alheadas das raízes.
A manhã estava clara, um pouco fria. As imagens fixam-se na retina, rápidas.
Um blogue de pequenos absurdos...sobre literatura, quotidiano, cultura, acontecimentos. Ideias para negar a melancolia e procurar caminhos.
terça-feira, 24 de abril de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
"Aquarela" de Vinicius de Moraes
(...)
E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá
Para a C.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Viagem a Bilbao (2)
Quase ficava esquecida a segunda parte das impressões de viagem de Bilbao, para a qual estava reservado o que de mais óbvio tem a cidade: o museu Guggenheim. A imagem do museu faz parte da memória visual de qualquer pessoa, o que causa sempre o receio de que a "coisa mesma" fique longe das expetativas; no entanto, a desilusão temida não acontece. Gostei muito, mesmo muito do Guggenheim. Das cores que mudam com a hora do dia, entre o cinzento do fim de tarde, quando primeiro o vimos, e o bege da manhã seguinte, num dia com mais sol. Do enorme jardim-urso, a explodir de malmequeres multicoloridos e flashes dos visitantes. Dos planos de escadas, rigorosamente traçados. Dos labirintos de planos e chapas e telhados, como num bailado em que a matéria mais sólida (o titânio) parece flutuar no espaço. Da ponte que enquadra o enorme edifício. Das pessoas que correm, das crianças que brincam, das esplanadas que se enchem, porque os bilbaínos vivem a sua cidade e o seu museu, intensamente.
O Guggeheim encanta e fascina, e ainda nem sequer entrei (fica para a parte 3). Podia existir um monumento assim numa cidade portuguesa? Acredito que sim, que podia ter existido e podia ter mudado a face de uma cidade, de uma região, de um país. Parabéns, Bilbao, este museu tem, como edifício, como conceção e como vivência, a marca do génio.
O Guggeheim encanta e fascina, e ainda nem sequer entrei (fica para a parte 3). Podia existir um monumento assim numa cidade portuguesa? Acredito que sim, que podia ter existido e podia ter mudado a face de uma cidade, de uma região, de um país. Parabéns, Bilbao, este museu tem, como edifício, como conceção e como vivência, a marca do génio.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Pátria
| Pátria |
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.
Sophia de Mello Breyner Sophia escreveu este poema no tempo da ditadura, quando ansiava e lutava - ela mais um bom punhado de gente - pela liberdade, pela luz e pela justiça. Há algo de profundamente errado no facto de se ler o poema e o sentir dolorosamente atual. Pobre país que é o meu. Atravessamos uma longa, funda noite, e as metáforas são apenas uma tímida muleta para descrever este desespero mudo que vai crescendo em rostos de silêncio e paciência, em traços de fome, num exílio que se instala insidiosamente. |
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Suzanne e a memória
De forma improvável, esta música acompanhou uma parte da minha adolescência. Não a mais feliz nem luminosa, mas uma parte de mim que hoje, tantos anos passados, recordo com alguma nostalgia e o sentimento de que "não se perdeu nada em mim" (Sophia). O passado só se torna um fardo intolerável se o futuro recusar a reelaboração da memória. Olhar para trás com os pés no presente é descobrir, por vezes com surpresa, que todos os caminhos foram importantes para chegar a uma meta que, sabemo-lo bem, está sempre alguns metros à frente dos nossos passos.
A minha terra (2)
O Parque Pólis, construído sob o patrocínio do programa com o mesmo nome, é um espaço que merece ser elogiado. Bem concebido, representa um oásis numa cidade que, infelizmente, não prima pelo planeamento e pela visão de futuro. A qualquer hora do dia se encontram pessoas, de todas as idades, a desfrutar do ar livre e da natureza, provando que mesmo com um clima agrestre é possível viver "de portas para fora". Sempre que lá vou lembro-me que é bom (apesar dos ventos contrários) viver numa cidade com escala humana. A Guarda e cada um de nós merecemos este espaço.
sábado, 7 de abril de 2012
Feliz Páscoa
A casa de Deus
A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza
Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras de pedreiro
Mãos hábeis de carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem
Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito
A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada
É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens constroem na terra
Situada no tempo
Para habitação da eternidade
Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco
Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa
Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria
Páscoa de 1990
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza
Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras de pedreiro
Mãos hábeis de carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem
Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito
A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada
É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens constroem na terra
Situada no tempo
Para habitação da eternidade
Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco
Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa
Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria
Páscoa de 1990
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