quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Mala de cartão

É motivo de reportagens, está na boca dos políticos, repete-se nas conversas de amigos e conhecidos: " e tu já pensaste...?". Sim, uma parte muito significativa de nós, nos últimos tempos, já pensou em emigrar. Pode ser uma ideia vaga ou um projeto amadurecido, mas quem está em idade ativa esbarra constantemente nessa questão, seja pelo exemplo de outros, mais ou menos próximos, seja pelas constantes referências ao tema nos meios de comunicação social, seja, simplesmente, pelo medo subterrâneo que todos - ou quase todos - vamos enfrentando num dia-a-dia profissional.
Perante o argumento de que a geração que agora emigra, predominantemente jovem, está muito mais bem preparada e protegida, apenas posso concordar em parte. É verdade que muitos têm cursos superiores e um manancial de competências, académicas e não só, que os separam dos emigrantes portugueses das décadas pré-25 de abril. Mas os desafios, os riscos, os receios e a vulnerabilidade não são substancialmente diferentes. Sobretudo a solidão - como se vive com a solidão de um desenraizamento forçado?
Pedro Abrunhosa e Camané cantam a saudade dos emigrantes de hoje, de ontem, de amanhã. Talvez, como povo, sejamos particularmente gregários e por isso mais dados à nostalgia. Ou talvez esta saudade não seja um essencialismo do "ser português" (sempre tão questionável...) mas a expressão de uma revolta (em jeito manso e contido) relativamente ao vazio de oportunidade neste nosso país, cada vez mais roubado a si mesmo.

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