Os apontamentos de uma viagem ao Iowa terminam com as pequenas coisas que ficam na memória e que é mais fácil mostrar que contar. As impressões que perduram e que nos tocaram de alguma forma, numa viagem que me levou por roteiros que dificilmente se repetirão.
A caixa de correio que nos habituámos a ver nos filmes é assim tal e qual, com a bandeirinha de lado. Estava para baixo: era sábado e não havia correspondência (suponho).
Outro estereótipo: as repúblicas de estudantes. Esta, a pouca distância da universidade, exibia uma imponente fachada e foi reconhecível, mais uma vez, devido ao extraodinário reportório da cultura quotidiana dos americanos que cada um de nós possui.
Os campos de basebol são imensos e estendem-se nos parques públicos para treino de equipas e dos cidadãos comuns. Num dia gelado, havia crianças e jovens a praticar este jogo de difícil entendimento para os europeus.
Uma casinha de pássaros pendurada numa árvore. Preciosa na simplicidade, para além de ser uma imagem que, mais uma vez, vamos buscar ao fundo da memória dos desenhos animados americanos.
Um casamento apanhado por acaso, no parque da cidade. A noiva, percebi depois, estava dentro da limusina e aguardava por um momento favorável para sair. Esperei e ali estava ela, a correr de chinelos para uma casa de apoio onde, julgo, se acabaria de arranjar. Estava um frio cortante, já o referi. Do anfiteatro saía som de violinos, enquanto os convidados se juntavam pouco impressionados com a rudeza das condições atmosféricas.
Um blogue de pequenos absurdos...sobre literatura, quotidiano, cultura, acontecimentos. Ideias para negar a melancolia e procurar caminhos.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Apontamentos do Iowa (2)
As árvores vestidas de outono. Vermelhas, amarelas, verdes. Por todo o lado, majestosas, a impor a sua presença antiga, ordenando os espaços em seu redor, como donas da paisagem humanizada. Seja nos bairros residenciais, no perímetro da universidade, nos parques urbanos ou nas bermas das auto-estradas, as árvores são protagonistas de pleno direito, a lembrar um respeito pela natureza que pode parecer paradoxal, se pensarmos na omnipresença dos automóveis e nas construções desengraçadas.
Em Iowa City, como em muitas cidades americanas, ir a pé a algum lado é algo de bizarro, pois todos circulam em veículos motorizados fora de um breve perímetro de poucas dezenas de metros. Por esta razão quando, no primeiro dia, decidi ir a pé para a universidade, foram pouquíssimas as pessoas que encontrei, dando-me a impressão (falsa) de uma cidade vazia.
Ao sair do hotel, instintivamente (pois não há mapas dignos desse nome para peões) segui o rio e atravessei uma zona residencial que me pareceu ser claramente dominada pela classe média e média-alta. As casas eram, na sua maioria, de linhas tradicionais, como nos habituámos a ver nos filmes e nas séries, com a exceção de uma ou outra mais moderna, com materiais que fugiam à clássica madeira colorida. Porém, o que mais me agradou neste bairro foi a perfeita integração na paisagem - as árvores, como já referi, mas também os relvados um tanto selvagens, naturais, numa continuidade perfeita entre o público e o privado. Sem vedações nem sebes, havia mobiliário de jardim espalhado em frente às casas e quase apetecia sair do passeio e descansar por ali um bocadinho, naqueles espaços de ambígua propriedade.
Este modo de viver, tão contrário ao dos portugueses, agrada-me. Possibilita espaços esteticamente agradáveis e proporciona - pelo menos aparentemente - uma vivência mais descontraída, sem a obsessão dos limites e da privacidade. Habituava-me a viver assim.
Em Iowa City, como em muitas cidades americanas, ir a pé a algum lado é algo de bizarro, pois todos circulam em veículos motorizados fora de um breve perímetro de poucas dezenas de metros. Por esta razão quando, no primeiro dia, decidi ir a pé para a universidade, foram pouquíssimas as pessoas que encontrei, dando-me a impressão (falsa) de uma cidade vazia.
Ao sair do hotel, instintivamente (pois não há mapas dignos desse nome para peões) segui o rio e atravessei uma zona residencial que me pareceu ser claramente dominada pela classe média e média-alta. As casas eram, na sua maioria, de linhas tradicionais, como nos habituámos a ver nos filmes e nas séries, com a exceção de uma ou outra mais moderna, com materiais que fugiam à clássica madeira colorida. Porém, o que mais me agradou neste bairro foi a perfeita integração na paisagem - as árvores, como já referi, mas também os relvados um tanto selvagens, naturais, numa continuidade perfeita entre o público e o privado. Sem vedações nem sebes, havia mobiliário de jardim espalhado em frente às casas e quase apetecia sair do passeio e descansar por ali um bocadinho, naqueles espaços de ambígua propriedade.
Este modo de viver, tão contrário ao dos portugueses, agrada-me. Possibilita espaços esteticamente agradáveis e proporciona - pelo menos aparentemente - uma vivência mais descontraída, sem a obsessão dos limites e da privacidade. Habituava-me a viver assim.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Apontamentos do Iowa (1)
Um congresso da APSA (American Portuguese Studies Association) levou-me bem longe, até Iowa City, a uma hora de voo de Chicago, mas numa outra outra América que não se alimenta de arranha-céus, táxis apressados ou profissionais com ar competente. Distante, portanto, das imagens estereotipadas que filmes e séries de televisão nos vão incutindo - mas ainda assim familiar em certo sentido, porque existe um imaginário construído que nos transporta para estes ambientes mais afastados das grandes metrópoles, aquilo a que, se quiséssemos usar um cliché, apelidaríamos de "América profunda". Ou, usando outro cliché, mais nosso, "o cu de Judas".
É uma pequena cidade, Iowa City, apesar de a sempre útil wikipedia esclarecer que é a quinta maior cidade do Estado, com cerca de 68 000 habitantes. A impressão que me ficou foi de uma cidade meia adormecida, com uma downtown aborrecida e feia, apesar da enorme população estudantil. Falo da zona comercial, pois o rio, os bairros residenciais, a universidade, têm outros encantos de que farei apontamento mais adiante.
Iowa City foi a primeira capital do estado com o mesmo nome (até 1857) e o Old Capitol - atualmente propriedade da universidade - disso faz testemunho. O edifício, com as suas colunas neoclássicas e a cúpula dourada, impõe-se na paisagem monótona da cidade, não sendo raros os turistas (americanos) que nele se detêm, máquinas fotográficas a disparar.
Estava frio, muito frio, e as incursões ao centro foram rápidas, para almoços de passagem. Mas não é aqui que Iowa me deixou marca na memória.
É uma pequena cidade, Iowa City, apesar de a sempre útil wikipedia esclarecer que é a quinta maior cidade do Estado, com cerca de 68 000 habitantes. A impressão que me ficou foi de uma cidade meia adormecida, com uma downtown aborrecida e feia, apesar da enorme população estudantil. Falo da zona comercial, pois o rio, os bairros residenciais, a universidade, têm outros encantos de que farei apontamento mais adiante.
Iowa City foi a primeira capital do estado com o mesmo nome (até 1857) e o Old Capitol - atualmente propriedade da universidade - disso faz testemunho. O edifício, com as suas colunas neoclássicas e a cúpula dourada, impõe-se na paisagem monótona da cidade, não sendo raros os turistas (americanos) que nele se detêm, máquinas fotográficas a disparar.
Estava frio, muito frio, e as incursões ao centro foram rápidas, para almoços de passagem. Mas não é aqui que Iowa me deixou marca na memória.
sábado, 29 de setembro de 2012
Sobre a memória
"Eis uma outra forma de darmos sentido à expressão 'lugares de memória'. Tudo o que me acontece acontece no passado (Freud: 'um afcto está sempre no passado'). Mas cada lugar em que me instalo e enraízo é sobretudo, na melancolia das suas referências, o lugar de uma felicidade futura. Praias do Brasil, costas da Bretanha, hotéis decadentes à beira-mar com o bafo quente nas madeiras que rangem e a humidade dos musgos. A memória enrola-se em torno destes dias esguios que se subtraem à indiferença dos calendários. Um lugar da memória não é mais do que isto: um tecido que se deixa embeber pelo azul do céu e pelo azul do mar."
Eduardo Prado Coelho, Tudo o que não escrevi. Diário II, Porto, Edições Asa, 1994, p.194
Eduardo Prado Coelho, Tudo o que não escrevi. Diário II, Porto, Edições Asa, 1994, p.194
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Os exames do 4º ano
Reunião dos representantes de turma com a Associação de Pais do agrupamento. A sala é antiga, com tetos altos e paredes desmaiadas, a lembrar os tempos dos pais e não as vivências dos filhos. As vozes ecoam, ampliadas, e é muito o ruído de fundo, a dificultar um fio de discurso coerente. É sempre assim, sabe-se, os pais querem falar das situações concretas que vivem, ou então aproveitam para pôr a conversa em dia com a amiga que está sempre apressada mas ali não, veio com tempo para gastar porque trata-se da escola dos filhos e isso supera outras prioridades.
No meio de assuntos que interessam mais a este ou aquele grupo de pais, emergiu um que, por razões naturais, tinha mais relevância para mim: os exames do 4º ano. Declaro, à partida, a minha total discordância destes exames, por entender que de nada servem e bastantes males trazem. A confusão gerada em torno do assunto confirma as minhas convicções. (Muitos) Pais ansiosos e tensos com a indefinição do modelo e dos conteúdos a avaliar; relatos de (vários) professores a colocar uma pressão enorme sobre crianças e pais logo no início do ano letivo. A sensação é a de que nos preparamos para uma maratona com ritmo de corrida de velocidade. E para quê? Porquê? Qual o objetivo de tudo isto?
Convinha que alguém, de algum modo, em algum momento, explicasse os ganhos de classificar crianças de nove anos. A palavra é propositada: classificar. Avaliar é outra coisa. E isto não é eduquês, é senso comum.
No meio de assuntos que interessam mais a este ou aquele grupo de pais, emergiu um que, por razões naturais, tinha mais relevância para mim: os exames do 4º ano. Declaro, à partida, a minha total discordância destes exames, por entender que de nada servem e bastantes males trazem. A confusão gerada em torno do assunto confirma as minhas convicções. (Muitos) Pais ansiosos e tensos com a indefinição do modelo e dos conteúdos a avaliar; relatos de (vários) professores a colocar uma pressão enorme sobre crianças e pais logo no início do ano letivo. A sensação é a de que nos preparamos para uma maratona com ritmo de corrida de velocidade. E para quê? Porquê? Qual o objetivo de tudo isto?
Convinha que alguém, de algum modo, em algum momento, explicasse os ganhos de classificar crianças de nove anos. A palavra é propositada: classificar. Avaliar é outra coisa. E isto não é eduquês, é senso comum.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Os filhos fazem nascer as mães
Os filhos fazem nascer as mães muito antes do dia do nascimento, às vezes devagarinho, às vezes num sobressalto, como é próprio dos grandes acontecimentos que mudam para sempre para a face da Terra - pelo menos a face que reconhecemos como nossa, nos limites que nos permitem fincar o pé e saber quem somos.
Os filhos nascem num tempo indeterminado, marcado pelo compasso dos sonhos e dos medos, e crescem acompanhados do barulho ritmado do coração das mães, nessa espera apaixonada que conhece a violência dos contrários - alegria e angústia, esperança e desalento, sorrisos e lágrimas.
Os filhos chegam para fazerem as mães acreditar que são as pessoas mais insignificantes e mais importantes do mundo, que não pertencem a si mesmas e que é preciso cautela com o que fazem de si.
Os filhos reinventam as mães em cada dia porque as olham como uma extensão do seu eu que está a aprender a ser, e para se afastarem precisam de uma mão que os agarre - as mães sabem que têm de ensinar os filhos a saltar os muros que não se cansam de refazer, pedra a pedra.
Há nove anos nasciam as minhas filhas, após uma longa espera que me fez nascer mãe antes de saber sequer do milagre da sua existência. É difícil fugir aos lugares comuns quando se fala dos filhos, sobretudo dos próprios. São as crianças mais especiais do mundo, porque são as minhas. E são as melhores filhas que uma mãe pode ter. O amor diz-se assim, com banalidades. Feliz aniverário, filhas.
Os filhos nascem num tempo indeterminado, marcado pelo compasso dos sonhos e dos medos, e crescem acompanhados do barulho ritmado do coração das mães, nessa espera apaixonada que conhece a violência dos contrários - alegria e angústia, esperança e desalento, sorrisos e lágrimas.
Os filhos chegam para fazerem as mães acreditar que são as pessoas mais insignificantes e mais importantes do mundo, que não pertencem a si mesmas e que é preciso cautela com o que fazem de si.
Os filhos reinventam as mães em cada dia porque as olham como uma extensão do seu eu que está a aprender a ser, e para se afastarem precisam de uma mão que os agarre - as mães sabem que têm de ensinar os filhos a saltar os muros que não se cansam de refazer, pedra a pedra.
Há nove anos nasciam as minhas filhas, após uma longa espera que me fez nascer mãe antes de saber sequer do milagre da sua existência. É difícil fugir aos lugares comuns quando se fala dos filhos, sobretudo dos próprios. São as crianças mais especiais do mundo, porque são as minhas. E são as melhores filhas que uma mãe pode ter. O amor diz-se assim, com banalidades. Feliz aniverário, filhas.
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