Há absurdos que servem para salvar. Os pequenos absurdos quotidianos a que se referia o O'Neill e que inspiraram o nome deste blogue. Pequenas coisas que enchem os dias de perplexidade e que abalam as certezas enraizadas, os hábitos distraídos.
Depois há os absurdos que servem para condenar. Absurdos que são agressões, que amachucam, que doem. Estes multiplicam-se, nos dias que correm, e contra eles é preciso erguer a voz, mesmo que uma cortina de indiferença pareça mais forte. Não é, mas os donos dos grandes absurdos são muito eficazes a convencer as pessoas que não vale a pena gritar.
O grande absurdo de hoje é a intenção do governo de introduzir propinas no ensino secundário. Só a menção a um ensino secundário gratuito já é um pouco risível, considerando que um ordenado mínimo chega à justa para comprar livros e material escolar no início do ano letivo - um ordenado por filho, claro! - e que, ao longo dos meses, se multiplicam as despesas com refeições, deslocações, livros de apoio, material de desgaste, viagens de estudo e sem um número de parcelas que, todas somadinhas, fazem com que os pais da (moribunda) classe média, sem acesso a (moribundos) apoios e subsídios tenham de fazer algumas manobra de presdigitação para chegar ao fim do mês com as contas pagas.
Mas como todo este esforço financeiro parece pouco aos que nos (des)governam, para mais num contexto de empobrecimento generalizado (e que tenderá a agravar-se nos próximos anos), pretende-se que as famílias paguem o ensino secundário, como se se tratasse, enfim, de um "extra" que o Estado não tem obrigação de assegurar. Se só o ensino básico tem de ser "gratuito", assume-se, como princípio ideológico, que possuir o ensino secundário completo é algo de dispensável na admirável sociedade futura - apesar, pasme-se, de este último ser obrigatório (delírios do anterior governo, está visto).
Seria interessante ouvir o ministro da educação sobre este tema. Seria interessante saber que expectativas têm os pais para os seus filhos pequenos - os pais desempregados, os pais dos ordenados mínimos, os pais das casas penhoradas, os pais que dependem dos seus próprios pais para ter comida na mesa. Perguntem aos que têm hoje 40, 50, 60 anos, e não foram além da 4ª classe ou do ciclo preparatório por falta de recursos, o que pensam destas ideias. Perguntem à Alice, minha colega de carteira no ciclo preparatório, aluna de quatros e cincos, e que aos 12 anos foi para uma fábrica de calçado fazer uns biscates, até ser possível, aos 14, tornar-se uma operária de papéis passados.
Repensar o Estado social, dizem eles. A mim ocorre-me uma palavra: obscenidade.
Um blogue de pequenos absurdos...sobre literatura, quotidiano, cultura, acontecimentos. Ideias para negar a melancolia e procurar caminhos.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Música para um dia de nevoeiro
Rodrigo Leão & Cinema Ensemble, álbum "A Mãe" (para mim, o melhor do autor até à data), com a participação especial de Neil Hannon.
Uma música à parte, com um arranjo belíssimo e uma voz poderosamente lírica. Comovente. O nevoeiro lá fora parece deixar todas as coisas num estado de suspensão, entre o céu e a terra, entre o presente e um indefinível futuro. Esta música condiz com a bruma.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Dies Irae
DIES IRAE
Apetece cantar,mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer,mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Miguel Torga
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Um de novembro
Começou novembro com o último feriado de Todos-os-Santos, um dia cinzento como tem sido recorrente neste outono de pouco sol e muitas sombras. O tempo como o país, numa morrinha amansada, insidiosa, depressiva.
Começa novembro com um feriado que deixará de o ser, pondo termo a uma longa tradição de peregrinações por esse país fora, numa urgência de visita aos cemitérios que nos marca como povo mais vocacionado para o passado do que para o futuro.
Confesso a minha indiferença relativamente ao fim do que é por quase todos concebido como o "dia dos mortos". Não guardo boas recordações deste dia, sou avessa a cultos de cemitérios, velas e flores e parece-me dispensável haver um dia fixo para que os familiares visitem os "seus" mortos, nas "suas" campas.
Contudo, sou sensível ao facto de que, para muitas famílias, esta era uma ocasião única para reencontrarem os que vivem longe. Por causa deste dia, milhares de pessoas deslocavam-se, com uma fidelidade que nem no natal nem em qualquer outra festividade encontrava paralelo. Suponho que o ritual poderá ser transferido para o fim de semana, mas não será a mesma coisa e penso que o poder de mobilização se perderá, em poucos anos.
Novembro é um mês de dias pequenos e passos mais curtos, encolhidos pelo primeiro frio.
Começa novembro com um feriado que deixará de o ser, pondo termo a uma longa tradição de peregrinações por esse país fora, numa urgência de visita aos cemitérios que nos marca como povo mais vocacionado para o passado do que para o futuro.
Confesso a minha indiferença relativamente ao fim do que é por quase todos concebido como o "dia dos mortos". Não guardo boas recordações deste dia, sou avessa a cultos de cemitérios, velas e flores e parece-me dispensável haver um dia fixo para que os familiares visitem os "seus" mortos, nas "suas" campas.
Contudo, sou sensível ao facto de que, para muitas famílias, esta era uma ocasião única para reencontrarem os que vivem longe. Por causa deste dia, milhares de pessoas deslocavam-se, com uma fidelidade que nem no natal nem em qualquer outra festividade encontrava paralelo. Suponho que o ritual poderá ser transferido para o fim de semana, mas não será a mesma coisa e penso que o poder de mobilização se perderá, em poucos anos.
Novembro é um mês de dias pequenos e passos mais curtos, encolhidos pelo primeiro frio.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Apontamentos do Iowa (3)
Os apontamentos de uma viagem ao Iowa terminam com as pequenas coisas que ficam na memória e que é mais fácil mostrar que contar. As impressões que perduram e que nos tocaram de alguma forma, numa viagem que me levou por roteiros que dificilmente se repetirão.
A caixa de correio que nos habituámos a ver nos filmes é assim tal e qual, com a bandeirinha de lado. Estava para baixo: era sábado e não havia correspondência (suponho).
Outro estereótipo: as repúblicas de estudantes. Esta, a pouca distância da universidade, exibia uma imponente fachada e foi reconhecível, mais uma vez, devido ao extraodinário reportório da cultura quotidiana dos americanos que cada um de nós possui.
Os campos de basebol são imensos e estendem-se nos parques públicos para treino de equipas e dos cidadãos comuns. Num dia gelado, havia crianças e jovens a praticar este jogo de difícil entendimento para os europeus.
Uma casinha de pássaros pendurada numa árvore. Preciosa na simplicidade, para além de ser uma imagem que, mais uma vez, vamos buscar ao fundo da memória dos desenhos animados americanos.
Um casamento apanhado por acaso, no parque da cidade. A noiva, percebi depois, estava dentro da limusina e aguardava por um momento favorável para sair. Esperei e ali estava ela, a correr de chinelos para uma casa de apoio onde, julgo, se acabaria de arranjar. Estava um frio cortante, já o referi. Do anfiteatro saía som de violinos, enquanto os convidados se juntavam pouco impressionados com a rudeza das condições atmosféricas.
A caixa de correio que nos habituámos a ver nos filmes é assim tal e qual, com a bandeirinha de lado. Estava para baixo: era sábado e não havia correspondência (suponho).
Outro estereótipo: as repúblicas de estudantes. Esta, a pouca distância da universidade, exibia uma imponente fachada e foi reconhecível, mais uma vez, devido ao extraodinário reportório da cultura quotidiana dos americanos que cada um de nós possui.
Os campos de basebol são imensos e estendem-se nos parques públicos para treino de equipas e dos cidadãos comuns. Num dia gelado, havia crianças e jovens a praticar este jogo de difícil entendimento para os europeus.
Uma casinha de pássaros pendurada numa árvore. Preciosa na simplicidade, para além de ser uma imagem que, mais uma vez, vamos buscar ao fundo da memória dos desenhos animados americanos.
Um casamento apanhado por acaso, no parque da cidade. A noiva, percebi depois, estava dentro da limusina e aguardava por um momento favorável para sair. Esperei e ali estava ela, a correr de chinelos para uma casa de apoio onde, julgo, se acabaria de arranjar. Estava um frio cortante, já o referi. Do anfiteatro saía som de violinos, enquanto os convidados se juntavam pouco impressionados com a rudeza das condições atmosféricas.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Apontamentos do Iowa (2)
As árvores vestidas de outono. Vermelhas, amarelas, verdes. Por todo o lado, majestosas, a impor a sua presença antiga, ordenando os espaços em seu redor, como donas da paisagem humanizada. Seja nos bairros residenciais, no perímetro da universidade, nos parques urbanos ou nas bermas das auto-estradas, as árvores são protagonistas de pleno direito, a lembrar um respeito pela natureza que pode parecer paradoxal, se pensarmos na omnipresença dos automóveis e nas construções desengraçadas.
Em Iowa City, como em muitas cidades americanas, ir a pé a algum lado é algo de bizarro, pois todos circulam em veículos motorizados fora de um breve perímetro de poucas dezenas de metros. Por esta razão quando, no primeiro dia, decidi ir a pé para a universidade, foram pouquíssimas as pessoas que encontrei, dando-me a impressão (falsa) de uma cidade vazia.
Ao sair do hotel, instintivamente (pois não há mapas dignos desse nome para peões) segui o rio e atravessei uma zona residencial que me pareceu ser claramente dominada pela classe média e média-alta. As casas eram, na sua maioria, de linhas tradicionais, como nos habituámos a ver nos filmes e nas séries, com a exceção de uma ou outra mais moderna, com materiais que fugiam à clássica madeira colorida. Porém, o que mais me agradou neste bairro foi a perfeita integração na paisagem - as árvores, como já referi, mas também os relvados um tanto selvagens, naturais, numa continuidade perfeita entre o público e o privado. Sem vedações nem sebes, havia mobiliário de jardim espalhado em frente às casas e quase apetecia sair do passeio e descansar por ali um bocadinho, naqueles espaços de ambígua propriedade.
Este modo de viver, tão contrário ao dos portugueses, agrada-me. Possibilita espaços esteticamente agradáveis e proporciona - pelo menos aparentemente - uma vivência mais descontraída, sem a obsessão dos limites e da privacidade. Habituava-me a viver assim.
Em Iowa City, como em muitas cidades americanas, ir a pé a algum lado é algo de bizarro, pois todos circulam em veículos motorizados fora de um breve perímetro de poucas dezenas de metros. Por esta razão quando, no primeiro dia, decidi ir a pé para a universidade, foram pouquíssimas as pessoas que encontrei, dando-me a impressão (falsa) de uma cidade vazia.
Ao sair do hotel, instintivamente (pois não há mapas dignos desse nome para peões) segui o rio e atravessei uma zona residencial que me pareceu ser claramente dominada pela classe média e média-alta. As casas eram, na sua maioria, de linhas tradicionais, como nos habituámos a ver nos filmes e nas séries, com a exceção de uma ou outra mais moderna, com materiais que fugiam à clássica madeira colorida. Porém, o que mais me agradou neste bairro foi a perfeita integração na paisagem - as árvores, como já referi, mas também os relvados um tanto selvagens, naturais, numa continuidade perfeita entre o público e o privado. Sem vedações nem sebes, havia mobiliário de jardim espalhado em frente às casas e quase apetecia sair do passeio e descansar por ali um bocadinho, naqueles espaços de ambígua propriedade.
Este modo de viver, tão contrário ao dos portugueses, agrada-me. Possibilita espaços esteticamente agradáveis e proporciona - pelo menos aparentemente - uma vivência mais descontraída, sem a obsessão dos limites e da privacidade. Habituava-me a viver assim.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Apontamentos do Iowa (1)
Um congresso da APSA (American Portuguese Studies Association) levou-me bem longe, até Iowa City, a uma hora de voo de Chicago, mas numa outra outra América que não se alimenta de arranha-céus, táxis apressados ou profissionais com ar competente. Distante, portanto, das imagens estereotipadas que filmes e séries de televisão nos vão incutindo - mas ainda assim familiar em certo sentido, porque existe um imaginário construído que nos transporta para estes ambientes mais afastados das grandes metrópoles, aquilo a que, se quiséssemos usar um cliché, apelidaríamos de "América profunda". Ou, usando outro cliché, mais nosso, "o cu de Judas".
É uma pequena cidade, Iowa City, apesar de a sempre útil wikipedia esclarecer que é a quinta maior cidade do Estado, com cerca de 68 000 habitantes. A impressão que me ficou foi de uma cidade meia adormecida, com uma downtown aborrecida e feia, apesar da enorme população estudantil. Falo da zona comercial, pois o rio, os bairros residenciais, a universidade, têm outros encantos de que farei apontamento mais adiante.
Iowa City foi a primeira capital do estado com o mesmo nome (até 1857) e o Old Capitol - atualmente propriedade da universidade - disso faz testemunho. O edifício, com as suas colunas neoclássicas e a cúpula dourada, impõe-se na paisagem monótona da cidade, não sendo raros os turistas (americanos) que nele se detêm, máquinas fotográficas a disparar.
Estava frio, muito frio, e as incursões ao centro foram rápidas, para almoços de passagem. Mas não é aqui que Iowa me deixou marca na memória.
É uma pequena cidade, Iowa City, apesar de a sempre útil wikipedia esclarecer que é a quinta maior cidade do Estado, com cerca de 68 000 habitantes. A impressão que me ficou foi de uma cidade meia adormecida, com uma downtown aborrecida e feia, apesar da enorme população estudantil. Falo da zona comercial, pois o rio, os bairros residenciais, a universidade, têm outros encantos de que farei apontamento mais adiante.
Iowa City foi a primeira capital do estado com o mesmo nome (até 1857) e o Old Capitol - atualmente propriedade da universidade - disso faz testemunho. O edifício, com as suas colunas neoclássicas e a cúpula dourada, impõe-se na paisagem monótona da cidade, não sendo raros os turistas (americanos) que nele se detêm, máquinas fotográficas a disparar.
Estava frio, muito frio, e as incursões ao centro foram rápidas, para almoços de passagem. Mas não é aqui que Iowa me deixou marca na memória.
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