quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O prazer de ler

Levei ontem as minhas filhas de dez anos à livraria do centro comercial. Sempre que lá passamos querem entrar, mesmo que não haja planos de comprar nada. Compreendo-as, eu também entro na livraria de cada vez que passo à porta, mesmo que tenha prometido a mim mesma não trazer nada. A M. já sabia que tinha saído um novo livro de uma das coleções da Enid Blyton que ela adora. Perante a sugestão de pedir o livro para o Natal, que pouco tarda, desabafou que não conseguia esperar tanto tempo e prontificou-se a comprá-lo com o dinheiro do mealheiro. Não se voltou a separar do livro nesse dia, aproveitou cada bocadinho, e leu sentada, de pé, no carro, a caminhar. Transbordava de felicidade.
Conto este pequeno episódio de uma pequena grande leitora porque o genuíno entusiasmo da M. faz-me lembrar como, para muitos, o puro prazer de ler é completamente desconhecido. A alegria de ter um livro novo para ler ou a ansiedade por aqueles momentos em que ficaremos disponíveis para a leitura. O desconsolo de abandonar personagens, terminada a última página. Até mesmo a desilusão perante uma história que prometia mas não cumpriu.
Ler deve ser, tem de ser uma experiência emocional. Antes de mais e acima de tudo. Porque é esta experiência de simpatias e embirrações que faz um leitor perene, desde os primeiros anos de alfabetização. Infelizmente, não há muito espaço nas escolas para os afetos, e isso também se reflete na ausência de valorização das leituras dos alunos (sejam elas quais forem), na imposição cega de autores e obras (em vez dos "contratos de leitura" que em teoria são possíveis), na indisponibilidade para simplesmente falar dos livros, como quem fala dos amigos ou dos passeios (sem análises críticas para debitar).
Não me espanta nada que, como recentemente divulgado, Portugal seja dos países europeus onde existe menor participação em atividades culturais. Segundo este estudo, 49% dos portugueses aponta a falta de interesse como razão para não ler livros - e parece-me mesmo que este número está abaixo da realidade. Ora, o interesse precisa, sobretudo e simplesmente, de ter espaço para existir. De não ser abafado. De liberdade.
Uma última nota: a minha outra filha trouxe um livro de atividades para meninas, textos breves e muitas imagens. Também ficou muito feliz com a compra. Duas leitoras entusiasmadas é o que desejo continuar a ver pelos anos que aí vêm.

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