domingo, 26 de fevereiro de 2012

Razões de um blogue

Há uns tempos, comecei a matutar na ideia de ter um blogue. Afinal, gosto de escrever, acredito que não o faço mal e (suprema presunção...) penso que tenho algumas coisas a dizer que podem interessar mais que ao meu umbigo.
O primeiro desafio foi o nome. Ocorreram-me muitos...mas todos ocupados. Foi aí que me apercebi, por um lado, da minha pouca imaginação (mas como é que houve alguém que pensou nisto antes de mim?) e, por outro, da imensidão de cantos e cantinhos nesta blogosfera em língua portuguesa. Muitos encerrados, é certo, outros com meia dúzia de mensagens, mas vivos o suficiente para me impedirem de escolher aquele nome que tão bem condizia com as minhas intenções.
De experiência em experiência, acabei por ser guiada pela poesia de Alexandre O'Neill. Esclareço desde já que será presença assídua neste espaço, pois considero-o, simplesmente (e há muito tempo), um dos maiores poetas portugueses do século XX. Não me consigo lembrar exatamente como o descobri, mas penso que terá sido na adolescência, curiosidade suscitada pelas poesias dispersas que encontrava nos manuais de português. Hei-de falar sobre isto.
Sempre gostei muito do poema que dá título a este blogue. Não sendo um dos mais conhecidos, é para mim um dos mais comoventes - escrito na fase final da vida de O'Neill, é um texto feito de arestas cortantes onde, apesar do cansaço manifestado, não há desesperança nem desistência. É um poema de resistência. Resistir é preciso.
Vivemos tempos difíceis, e repeti-lo seria um lugar comum se não fosse tão verdade. Não é só a crise económica, embora esta tenha o condão de deixar em carne viva o que antes talvez não passasse de um prurido tolerável. É uma crise mais profunda e mais permanente; uma ausência de acreditar, a falência do otimismo. As pessoas olham para o chão; angustiam-se com o presente - acreditam ainda no futuro? Como chegamos aqui? Como vamos avançar de costas para o devir?
O desejo de começar este blogue coincidiu, mais coisa menos coisa, com um período em que senti a minha energia habitual a abandonar-me, ao mesmo tempo que a urgência dos dias me impôs um ritmo inusitado de trabalho, lembrando-me que estava proibida de baixar os braços. Bem, deixo claro que esta é uma característica minha: não baixar os braços, não desistir de um projeto, resistir, nem que seja por teimosia, nem que me esgote no processo.
O blogue nasce agora, no momento certo, depois de meses de hibernação e, repito-o, existe porque resistir é preciso. Contra o cansaço, uma faca. A faca do absurdo.
Pequenos absurdos, portanto. Que podem ser tudo: as viagens, os sonhos, os desejos, os desabafos, os comentários, os sentimentos. A literatura, a poesia, a futilidade, os locais, os projetos, as coisas. As palavras, as imagens, os silêncios. Sinto agora a ansiedade de todas as partidas.

A reter: Um pequeno absurdo às vezes basta para salvar.

2 comentários:

Joseé Cardoso disse...

Sinto agora a ansiedade de todas as partidas
A vontade de uma brisa na face de quem corre
Em busca das horas que julga perdidas

Sentada na ponta da lua disse...

Olá cheguei a este blog através do Fórum da API e desde já quero dar os meus parabéns por este "pequeno absurdo".

Do que li gostei e vou aproveitar para linkar ao meu blog, que não sendo muito activo, decidi reanimar há pouco tempo atrás.

Boa sorte na blogosfera.

Bjinho

Mieke